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Biodiversidade e saúde
Rovena Rosa

O ser humano faz parte de uma grande teia alimentar. Ele se alimenta de algumas espécies, como galinha, porco e boi, e serve de alimento para outras. “Na pré-história, nós éramos predados por tigres de dente de sagre, e hoje continuamos alimentando outras espécies, como mosquitos e carrapatos”, explica Marcia Chame, coordenadora do Programa de Biodiversidade e Saúde, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Algumas espécies que fazem parte da teia alimentar podem causar doenças, como os mosquitos que transmitem a dengue ou a malária, o percevejo que transmite a doença de chagas ou os protozoários que causam problemas intestinais. Mas o ser humano é o maior transmissor de doenças para ele mesmo. Além disto, tem a capacidade de acabar com certas espécies e de destruir o ambiente numa escala bem maior do que a capacidade da natureza de se regenerar.

Ter saúde implica em desenvolver-se, viver com plenitude e estar num ambiente equilibrado, que não propicie doenças. “Numa situação da perda da biodiversidade, na qual o homem destrói os ambientes naturais e acaba com o habitat de muitas espécies, passamos a ser suscetíveis a espécies às quais não estávamos acostumados, podendo passar a ser hospedeiros novos de alguma doença”, avalia a pesquisadora.

Quando os predadores de topo da teia alimentar, como as onças pintadas ou as aves de rapina, são exterminados (por caça predatória ou destruição do ambiente em que viviam), há um desequilíbrio por que as espécies por elas predadas deixam de ter controle populacional. O que vemos é uma explosão do número de espécies, em geral daquelas que têm boa capacidade de se adaptar a ambientes perturbados. Não por acaso, são boas mantenedoras ou transmissoras de parasitos, porque favorecem a sua sobrevivência. Em casos como estes, a falta de predador pode aumentar a circulação de doenças.

Doenças diluídas

Assim, seja qual for o motivo, quando se perde a biodiversidade, quem sobra são as espécies resistentes, que têm muita capacidade de adaptação, como os humanos, os ratos, os insetos. Estas espécies são capazes de andar e viver em qualquer lugar, manter os ciclos biológicos dos parasitos e, em muitos casos, no conjunto - hospedeiro-vetor-parasito, disseminar doenças ou gerar surtos, quando acontece um desequilíbrio de transmissão.

Se a teia alimentar é complexa, de muitas espécies, cria-se uma diluição das doenças, porque o vetor tem um ambiente com muitas possibilidades de alvo para completar o ciclo biológico. Por exemplo, na floresta, um inseto tem muitas opções de mamíferos para picar, além do ser humano. Algumas dessas espécies podem manter o parasito transmitido pelo inseto, e outras não. Além disto, nem sempre quem é picado pelo mosquito fica doente, podendo conviver com o parasito sem desenvolver sintomas. Isto vai aumentar ou não a transmissão da doença.

“Esse é um serviço que a gente não vê da biodiversidade, mas uma das coisas mais importantes é o efeito de diluição de doenças. Ela pode até nos trazer doenças novas, mas ao mesmo tem esta alta capacidade de diluição de doenças. Se a gente desestrutura e perde essa biodiversidade, perde este serviço da natureza, que é gratuito: ela nos dá e a gente nem pensa que isto existe”, completa a pesquisadora.

Comentários

Há um erro na matéria. A doença de Chagas não é transmitida por um besouro e sim por um percevejo. Tá superbacana o texto, mas ficaria melhor se essa informação fosse corrigida. Um abraço.

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