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Transexuais: não só rosa e azul
Rovena Rosa

Logo que se descobre qual é o sexo do bebê, mesmo ainda dentro da barriga da mãe, a criança, muitas vezes, já recebe um nome e é encaixada dentro de certas normas de gênero. Cada cultura tem regras sobre o que é esperado para os homens e o que se espera para as mulheres. Estas expectativas podem incluir modelos de corte de cabelo, roupas, empregos, ações e comportamentos. Assim, muitos crescem acreditando que, por exemplo, os meninos devem gostar de jogar futebol e meninas de brincar de boneca, sem pensar muito sobre o assunto.

A maioria das pessoas se sente confortável com o fato de ter nascido do sexo feminino ou masculino. Nestes casos a identidade de gênero dos indivíduos corresponde com a anatomia. Mas há quem se sente diferente de sua aparência física, quando o corpo não combina com o gênero com a qual se identificam. São pessoas que nasceram menina e se reconhecem como menino, ou nasceram menino e se percebem menina.

Muitos transexuais se sentem incompatíveis com seus corpos desde a primeira infância, outros começam a sentir que “estão no corpo errado” na puberdade ou mesmo mais tarde. A decisão de mudar fisicamente seus corpos, por meio de cirurgia ou de ingestão de hormônios, é uma tentativa de se sentir em harmonia com o gênero com o qual se identifica.

“Há muitas experiências de adolescentes que fogem de casa e começam a conviver com outras pessoas trans, que os apoiam no seu trânsito de gênero. Existem também experiências de pessoas que vivem anos de muita tensão e escondem o que sentem, para fazer esta transição efetivamente apenas na vida adulta”, diz a pesquisadora Vanessa Leite, pesquisadora do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (Clam), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Outros transexuais não sentem necessidade de fazer muitas mudanças corporais, mas gostam de se vestir como o sexo oposto ou passam a pedir para serem chamados de um novo nome. Quando as pessoas transexuais começar a viver suas vidas no gênero com o qual se identificam, que é diferente ao que lhe foi designado ao nascer, muitas questões podem surgir - como a forma de preencher formulários que requerem definição "feminino" ou "masculino", e mesmo que banheiros públicos usar.

Identidade de gênero é diferente de orientação sexual

Os transexuais enfrentam muita rejeição e discriminação de todos os setores da sociedade, além de raramente receberem apoio da família. Profissionais de saúde e educadores de instituições de ensino relatam muito sofrimento por parte dos adolescentes transgêneros porque há pouco acolhimento, inclusive nas escolas e unidades de saúde. Para Vanessa Leite, as famílias ainda têm sido uma grande fonte de desrespeito e discriminação, tanto em relação à orientação sexual quanto à identidade de gênero dos adolescentes. Isto pode levar a sentimentos de depressão e isolamento.

O desafio é que haja mudança de mentalidade, levando à aceitação e à inclusão de todas as diferenças. “Existem muitas formas de ser homem e de ser mulher, o problema é que na nossa cultura, os modelos são muito rígidos. Há várias possibilidades de masculino e feminino. Se experimentássemos mais isso, todos nós seriamos mais felizes”, acredita Vanessa Leite.

Ser transexual não é a mesma coisa que ser gay. Ser transgênero é uma forma de identidade de gênero - a maneira como uma pessoa se vê e ao gênero com o qual se identifica. Ser gay ou lésbica está relacionado à orientação sexual – como cada um orienta seu afeto e seu desejo, se para meninas, meninos ou para os dois. Muitos gays e lésbicas estão confortáveis com o próprio gênero. Eles apenas são atraídos por pessoas do mesmo sexo. Isto porque orientação sexual é diferente de identidade de gênero. Um adolescente transexual pode ser hetero, gay ou bissexual - assim como outros adolescentes.

Grupos organizados da comunidade LGBT e diversos profissionais de saúde estão empenhados em apoiar as pessoas transexuais a encontrar aceitação, cuidados e a garantia de seus direitos. Já existem centros médicos especializados do Sistema Único de Saúde (SUS) que estão disponíveis para apoiar as pessoas transexuais a abordar as questões físicas e emocionais que possam enfrentar. “Temos defendido que as expressões da sexualidade e do gênero são dimensões fundamentais da vida de todas as pessoas e que devem ser consideradas um direito, assim como é a saúde, a educação”, conclui Vanessa. Todas as pessoas devem ter as necessidades, desejos, a integridade e a sexualidade respeitadas.

Filmes sobre o tema:

Tomboy
Minha vida em cor de rosa
Transamérica
Eu sou Homem
Amanda e Monique

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