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Diversidade sexual
Rovena Rosa

A adolescência é uma época de mudanças, dúvidas em relação ao futuro e descobertas, entre elas a da sexualidade. A busca de conhecer o próprio corpo e de sentir prazer pode começar como um assunto privado, mas aos poucos as dúvidas e novas sensações começam a ser compartilhadas entre os amigos... Até chegar o momento de se interessar por outras pessoas e descobrir se o desejo que se sente é por meninas, meninos ou pelos dois.

"Quando tinha sete anos surgiu, pela primeira vez, vontade de beijar uma amiguinha. Foi um beijo de criança, mas ficou na minha cabeça, porque minha madrinha viu e, pela reação dela, percebi que as pessoas consideravam isso incorreto”, conta Lívia Botelho, estudante de Comunicação Social na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

Não é raro ver em festas meninos beijando meninos e meninas beijando meninas, mas, para a psicóloga Anna Paula Uziel, isso não define a orientação sexual de ninguém.“Hoje é mais comum encarar a experimentação de forma mais livre”. Coordenadora do Laboratório Integrado em Diversidade Sexual, Políticas e Direitos, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Lidis/Uerj), ela defende o envolvimento amplo da escola (com famílias, funcionários, professores e alunos) para discutir, de forma aberta e sem preconceitos, questões como o direito e o respeito à diversidade.

Isto significa ver a sexualidade como expressão do desejo, da identidade, não limitando o debate a uma determinada matéria curricular. “Tenho clareza de que se a discussão da diversidade sexual chegar à escola, haverá mudança na atitude. Temos que desconstruir a ideia de que ser heterossexual é o normal”, avalia a psicóloga.

Muitas vezes, a aula de educação sexual se resume a um professor de biologia falar sobre o sistema reprodutor, colocar uma camisinha numa banana. Mas quase nunca tratam do assunto homossexualidade. “Não conversar sobre o assunto apenas alonga a dúvida dos jovens que estão desconfortáveis dentro de seus próprios corpos”, lamenta Lívia Botelho.

Sou gay, e daí?

Assumir a homossexualidade ou a bissexualidade ainda é um problema para muita gente, por não encontrar suporte na família ou na escola. Mas, apesar dos radicalismos e das agressões, há um certo otimismo de que a sociedade esteja, ao menos, começando a colocar o assunto em pauta.

Existem muitas experiências pessoais bem sucedidas, como é o caso de Nan Giard, estudante de fotografia da Universidade Estácio de Sá. “Foi bem fácil me assumir. Inclusive, não surpreendeu ninguém, nem os meus pais. Foi tudo com muita naturalidade. Penso que o mais complicado é a pessoa se aceitar. Eu passei horas da minha vida tentando me masculinizar, falar mais grosso, agir de um jeito mais ‘hetero’. Não tenho medo de dizer que sou gay. Prefiro passar por tudo que eu passo e já passei a viver me escondendo, como muitos amigos meus fazem”, diz.

Lívia Botelho teve experiência parecida: “Quem me apoiou foram os amigos que, por mais que brincassem com isso, pararam pra me escutar e ajudar em todas as situações. Meu pai foi meu herói. Disse que me amava de qualquer jeito, e que só o interessava que eu estivesse feliz. Sempre conheceu minhas namoradas, deu força e nunca escondeu isto dos amigos”, conta.

Mas, nem sempre é assim. A taxa de suicídio entre jovens homossexuais é altíssima. Há pessoas que sofrem agressões e até são mortas por causa da orientação sexual. Muitos adolescentes são levados a psicólogos ou trocados de escola por seus pais acharem que a homossexualidade pode ser uma questão de má influência ou um desvio a ser contornado. “A minha primeira namorada foi proibida de usar calças e tênis até, segundo os pais, se ‘curar’ da condição dela”, relata Lívia.

A heterossexualidade costuma ser vista como algo dado, e a homossexualidade como um problema. A família fica com medo, perguntando onde errou. “Não existe respaldo na psicologia, na psicanálise para dizer que é uma doença. Se não é doença, não tem por que tratar”, enfatiza Anna Paula Uziel.

Para saber mais:

No Brasil, existem instituições de pesquisa e organizações sociais que promovem estudos e ações no campo da diversidade sexual. No Rio de Janeiro, uma referência é o Laboratório Integrado em Diversidade Sexual, Políticas e Direitos(Lidis / Uerj), criado na sub-reitoria de Extensão e Cultura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) para discutir assuntos relacionados à sexualidade, políticas públicas e direitos humanos. Entre as funções do laboratório, está a parceria na implantação e supervisão acadêmica do projeto Rio sem Homofobia, do governo do estado.

Há iniciativas em outros estados que também se preocupam em discutir questões do direito à diversidade, como o Instituto Papai, no Recife, e o Grupo Ecos – Comunicação em Sexualidade, em São Paulo. Ambos são organizações não-governamentais (ONGs) que defendem a igualdade entre as pessoas, não importando o gênero, a orientação sexual, a idade ou a etnia. Para isto, promovem a revisão do modelo machista e a construção de novas condutas, a partir de sugestões de políticas públicas e discussões com a sociedade.

 

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Achei bem interessante.

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