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Isso é coisa de homem
Patricia Moreira

“O que é ser homem?” A pergunta tem sido ponto de partida do trabalho feito com jovens de ambos os sexos pelo Programa H, criado há dez anos pelo Instituto Promundo (Rio de Janeiro), em parceria com o Ecos – Comunicação em sexualidade (São Paulo), o Instituto Papai (Recife) e a organização mexicana Salud y Gênero. Dela surgem respostas que mostram como os modelos tradicionais de masculinidade são referências fortes para ambos os sexos. Segundo a codiretora executiva do Instituto Promundo, Christine Ricardo, independentemente das características do grupo (idade, condição social, sexo, cultura, região etc), as expressões associadas à masculinidade se repetem: força, autoridade, proteção, ser provedor, gostar de mulher, responsabilidade, entre outras.

“O tema da violência chama bastante atenção nessas discussões. Ainda existe uma forte crença de que os atos agressivos cometidos pelos homens fazem parte da natureza masculina, ou seja, são de origem biológica, o que não é verdade. Isso resulta do processo de socialização, da forma como criamos meninos e meninas. Não por acaso a maioria dos agressores é homem e eles também são as maiores vítimas da violência”, afirma.

Oficinas educativas

Para incentivar os homens jovens a refletirem criticamente sobre esses rígidos padrões de masculinidade e promover a igualdade de direitos entre os sexos, o Programa H desenvolve atividades, como oficinas educativas, campanhas comunitárias e diversos materiais que complementam os debates, entre os quais, vídeos e cartilhas.

Uma das preocupações do projeto é avaliar os seus impactos. Entre 2004 e 2006 foi feita uma pesquisa com 780 jovens homens, de 14 a 25 anos, que tinham participado das oficinas. Por meio de questionários e entrevistas, verificou-se que importantes mudanças haviam ocorrido nas atitudes dos rapazes em relação às questões de gênero e violência, nas relações íntimas, nos espaços da casa e no uso da camisinha.

O depoimento de um desses jovens sobre os direitos sexuais de homens e mulheres é um bom exemplo da transformação que o projeto proporciona: “[Se] um cara sai com uma mulher hoje, com outra amanhã, ele é chamado de 'mulherengo' ou 'garanhão'. Com as meninas não é assim. Elas são criticadas se fizerem isso, são chamadas de 'galinhas' e outras coisas. Mas eu mudei de opinião [depois das oficinas]. Se estiver namorando uma menina que já teve outros parceiros sexuais antes de mim, vou entender”.

Mobilizando a comunidade

Segundo Christine Ricardo, a pesquisa também serviu para mostrar que o projeto precisava atuar com as famílias. “Não adianta estimularmos a participação do menino nas tarefas domésticas se a mãe, a irmã ou mesmo o pai não deixa que ele faça. Outro desdobramento importante foi a criação do Programa M, que promove o empoderamento [a consciência do poder de influência nas relações sociais] e a saúde das mulheres jovens de 15 e 24 anos . Para isso, estimula as reflexões críticas a respeito do seu processo de socialização”.

Acostumados a promoverem as oficinas educativas do Programa H, Andreza Jorge e Rogério da Silva Brunelli, coordenadores do Projeto Onda Jovem na comunidade da Maré, no Rio de Janeiro, contam que para a maioria dos participantes, discutir as questões de gênero é algo totalmente novo. “A partir da nossa conversa, eles começam a perceber várias situações. Mas o conceito da masculinidade ainda está muito estereotipado, embora a gente já note que isso vem mudando. Nessa nova geração que tem acesso a ambientes de discussão e até mesmo a internet, os jovens estão começando a questionar mais esses modelos”, afirma Andreza.

De acordo com Rogério, o discurso de que cuidar da casa e das crianças é uma função feminina, aparece com frequência nos debates, e quem assume tarefas domésticas costuma sofrer zombarias. “Às vezes, a própria família cria resistência quando ele quer colaborar em casa”.

Fiscais da masculinidade

A influência da sociedade, reforçando esse modelo padrão do que significa ‘ser homem’ é um dos maiores desafios a ser enfrentado. Na avaliação de Andreza e Rogério, se o trabalho de reflexão iniciado na oficina não tiver atividades que deem continuidade, o adolescente poderá ter dificuldades de colocar em prática essa nova percepção da masculinidade. Nesse sentido, uma das estratégias do projeto é a realização de campanhas comunitárias, que são criadas com os próprios jovens para estender os debates aos moradores daquela localidade. São desenvolvidos pôsteres, camisetas, histórias em quadrinho, rádio-novela, cartazes, entre outras peças.

“Costumo dizer que em todo lugar existem os fiscais da masculinidade. São aquelas pessoas que a todo o momento reforçam o padrão, com os comentários: ‘Está chorando? Não é homem, não?’; ‘Vai ficar escrevendo bilhetinho para a namorada? Que coisa boba!‘, ‘Está com medo? Ih, não é homem!’. E isso é na escola, no grupo de amigos e até na família”, destaca Andreza.

As principais consequências desse padrão de masculinidade são o aumento da violência: a falta de cuidado com a saúde, o que deixa o homem mais exposto a doenças, como DSTs e Aids; menos envolvimento paterno; a homofobia (discriminação e preconceito contra os homossexuais); as dificuldades de relacionamento com a parceira; e a violência doméstica.

"Ir contra o modelo tradicional e quebrar preconceitos, mostrando que o homem pode ser cuidadoso, carinhoso, sensível e ter outras características, em geral atribuídas ao universo feminino, são essenciais para a construção de uma sociedade mais justa, que promova a relação saudável entre homens e mulheres.", conclui Christine Ricardo.

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